Ainda não sei como começar esta carta… Passei horas encarando esse papel, apagando, reescrevendo, riscando, relembrando… Então quero pedir perdão por encontrá-la em tão mal estado, devo isso as minhas lágrimas que se misturaram com as palavras. Estou agora observando as cortinas desse quarto de hospital, lembro-me bem como passávamos horas escolhendo entre os milhares de estilos e cores existentes para elas e mesmo assim não ligava, te observar fazer sua cara de emburrada me fazia sorrir ainda mais. […] A TV está ligada e você não está comigo, anjo… Foi escolha minha, eu sei, mas ainda lembro-me das tardes que passávamos assistindo filmes de terror. Incrível como você nunca ficava com medo, mas ainda assim se aconchegava em meu braço. […] Sinto seu perfume agora, anjo, não sei se foram os remédios que me deram, mas ouvi alguém me dizer uma vez, que quando estamos perto da morte, sentimos cheiros que nos lembrem algo importante, achava isso a maior besteira do mundo, mas agora não me parece tanto. Minha respiração está começando a ficar fraca, anjo, preciso tanto de você aqui, ouvi-la pela última vez, assim como fazíamos todas as vezes que dormíamos juntos, seus batimentos ecoando em minha mente, aquilo me acalmava tanto, minha pequena. O quarto está escurecendo agora, anjo… Sei que você provavelmente deve estar rezando por mim agora, mas sou eu que devo agradecer. Fizemos um ótimo trabalho juntos, não foi minha pequena? Mas, a verdade é que, a partir desse momento, nossos caminhos terão que ser separados. Então agora, anjo, quero que parta para a próxima aventura, com um sorriso no rosto e sem olhar para trás. Prometo estar lhe esperando em nossa próxima casa, para discutirmos mais um pouco sobre nossas cortinas.
Por: Pedro Cabral
Beijos da Leetícia

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